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19'000Km - A África de Norte a Sul por terra!
A Rota Relatos de Viagem Em Rota - 20º Relato - Finalmente Quelimane

Estou perante uma situação algo complicada. 

Como é do vosso conhecimento, uma das ideias subjacentes ao meu projecto de fazer a viagem por estrada entre Portugal e Moçambique, era trazer alguma ajuda para aquela que foi a minha escola primária, aqui, na cidade de Quelimane.

A imagem que, correntemente, encontrava da escola na net, era a da frontaria de um edifício com uma pintura algo desbotada. Nada mais do que isso. Mais tarde, encontrei num blog outras imagens, ditas do seu interior, e que me mostravam, salas de aula vazias, paredes quase sem pintura, chão de cimento liso, a maior parte das janelas sem vidros e aquelas que ainda tinham redes mosquiteiras, estas apresentavam enormes rasgos. O mobiliário escolar (até me parece despropositado o termo) não existia. Não havia cadeiras, mesas ou carteiras. Não havia cadeira nem mesa do professor. Os grandes quadros negros estavam cinzentos de anos de pó de giz, sem sequer uma letra ou um número escritos.

Pensei na altura, que aquelas imagens não deveriam pertencer à escola de Quelimane, tanto mais que tinha já estabelecido contactos com a sua directora telefonicamente, informando-a da minha intenção, que ela recebeu com bastante agrado, e nada indiciava que a escola estaria naquelas condições… portanto, aquelas imagens deveriam pertencer a uma escola qualquer, numa cidade qualquer e que estaria simplesmente abandonada.

Mas…. afinal não! Ontem, dia da minha chegada a Quelimane pude comprovar com os meus olhos que as imagens correspondiam exactamente à minha antiga escola… uma escola que está em funcionamento. Os alunos sentam-se no chão e é aí que escrevem e colocam os livros.

Verifiquei outro pormenor importante… a instalação eléctrica… não existe. Já existiu. Estão lá nas paredes e tectos… velhas lembranças. Acompanhado pela actual Directora da Escola deambulei pelos corredores, recordei a minha sala de aula e o local onde, a meio da manhã nos era dado um sumo de laranja, para acompanhar o lanche que se trazia de casa. Era por volta das dez horas – o chamado “intervalo grande”. E então eu aproveitava, dava metade do pão com queijo ao único detentor, na altura, de uma bicicleta, e aí eu… dar umas voltas pelo recreio.

O meu amigo era de origem indiana e mais tarde vim a saber que os nossos pais se conheciam e a história foi falada entre eles. E aqui o vosso Rui Filipe, no Natal da 4ª classe, recebeu uma “ginga”, desculpem uma bicicleta, uma Humber, preta e com os travões em metal cromado. Que deslumbre e felicidade para mim…

Mas voltemos à crua realidade dos dias de hoje. Então, amanhã, quando entregar os Magalhães, à Directora da Escola, na presença do Director Provincial para a Educação e Desporto, e - creio que também estará envolvido nesta recepção - o Governador-geral da Província da Zambézia… vão fazer o quê com os “laptops”? Estou muito desanimado com esta realidade e estou sem saber o que fazer, pois custa-me acreditar que este material alguma vez venha a estar ao serviço das crianças, dada a total falta de condições na escola. E pensar que encetei diligências com uma escola EB1 de Portimão, para pôr os alunos em contacto via internet… grande desilusão!

Amanhã dar-vos-ei mais desenvolvimentos… mas vou exigir garantias de que os “Magalhães” não irão parar a mãos pouco miúdas… se não puderem ficar nesta escola, terão de me arranjar uma que reúna as condições mínimas necessárias para que os alunos possam usufruir deste material.

Voltando ao meu regresso à cidade de Quelimane onde cheguei pela primeira vez em 1953. Aqui fiz a instrução primária, e o 1º período do 1º ano do liceu. Estava “diferente”.

Não me estou a referir ao aspecto das casas, edifícios, ruas, enfim, de tudo aquilo a que vim assistindo nas cidades pós-coloniais, com a degradação generalizada de tudo. Não… Isso não foi importante para mim naquele momento em que cheguei. Estava tudo onde eu sabia que estava.

Facilmente me desloquei pela cidade e fui encontrando tudo aquilo de que me lembrava - as duas casas onde morei, a minha escola, a Câmara Municipal, o edifício do BNU onde o meu pai trabalhou, a piscina municipal onde aprendi a nadar… o lugar onde funcionava a barbearia onde ia cortar o cabelo. A igreja onde fiz a 1ª comunhão, e servia de acólito, com mais uns 5 ou 7, à missa com o Bispo da cidade e província da Zambézia.

A esplanada onde ia com os meus pais beber o meu “whisky” – calma, era só Ginger-Ale, da CANADA-DRY…. Quem não se lembra? … e cujo aperitivo era camarão cozido pequeno, qual amendoins…… Não me perdi nas ruas. Sabia onde estava. Mas tinha “acontecido” algo como que por magia…. Sentia-me o “Gulliver em Lilliput” …. Era tudo muito mais pequenino.

O jardim central da cidade, que era imeeenso… bom, é afinal um jardinzito normal…; as casas onde vivi… bastante mais pequenas do que me recordava, assim como os jardins em volta onde capitaneei hostes de corsários, e fiz estradas na terra onde os meus carrinhos – Dinky-Toys – fizeram quilómetros de aventuras…; uma rampa de acesso ao jardim, forrada de pedra, que transformei vezes sem conta em cascata de rio caudaloso, de difícil progressão, subi em três passadas apenas…; as ruas, nas quais com a minha bicicleta – muitas vezes transformada em cavalo - repetia, com as necessárias adaptações pessoais, algumas das aventuras do Cisco Kid - uma das bandas desenhadas do Cavaleiro Andante, estavam mais estreitas. Pois é… afinal fui eu que cresci…

Mas gostei. Gostei de voltar. Felizmente, as já referidas casas onde morei com os meus pais, pertencem ao reduzido número das que mantém as paredes bem coloridas por recentes camadas de tinta.

Um edifício que me trouxe alguma tristeza foi a igreja. É uma ruína completa. Até se tem receio de andar lá dentro, não vá mais um bocado do reboco das paredes cair nos em cima, ou mesmo um pedaço do telhado. Há raízes da grossura dum braço trepando pelo interior da igreja e florescendo em viçosas árvores. As campas que antecedem os degraus da zona onde deveria estar o altar, têm as lápides partidas. Dá a ideia que foi a martelo, melhor dizendo, à marreta, que é mais pesada e parte mais depressa. As paredes, ou o que resta delas, apresentam ainda os vestígios onde estiveram as imagens em pequenos nichos e as marcas das cruzes da via-sacra. A zona onde esteve o altar é, talvez, aquela que me pareceu mais degradada. Eu sei que há neste templo uma carga simbólica muito grande para mim. As minhas recordações eram de um miúdo de dez/onze anos de idade… voltei com 62. É cá uma “pancada”!. Escolham a igreja mais arruinada que existe em Portugal, (que lamentavelmente também as há), mas esta está mil vezes pior. E não é o coração que fala…. são os olhos que vêem.

Mas há pior. As pessoas, isso sim, é importante. Acho que vão sobrevivendo, nesta cidade em que os serviços municipalizados funcionam com inúmeras carências, o saneamento é deficiente, o abastecimento de água apresenta roturas, os serviços de limpeza não existem, ou seja, em que tudo apresenta um aspecto geral de degradação imparável.

Quando chove e aqui chove bem, as ruas tornam-se rios caudalosos de uma mistura de água, terra, lixo… uma massa líquida fétida.

E tenho estado a falar do exterior das casas e edifícios… e como estarão os seus interiores? Mas apesar de tudo isto, as pessoas com quem falei sobre estes problemas da sua cidade, e foram várias, continuam muito afáveis, simpáticas e prestáveis… numa palavra continuam cordialmente zambezianos.

Amanhã… depois da entrega do material, vou para a praia de Zalala. Passo lá o fim-de-semana. Será que as estradas ainda têm a casca do coco a dar alguma consistência para os carros poderem progredir naquele terreno arenoso, já na aproximação da praia? Talvez não. Mas o Índico vai lá estar… imenso como sempre, nesta zona do Canal de Moçambique, concretamente no Banco de Sofala.

Rui Casimiro

 

Comentários  

 
0 #18 Casa em QuelimaneVitalina Dália 23-06-2012 20:47
Boa tarde,
Acabei de ver as suas fotografias de Quelimane e reparei que a sua casa era muito parecida à que eu vivi em criança, entre 1947 e 1953. Sabe o nome do antigo proprietário da casa ou mais alguma informação?
Foi muito bom rever esta cidade!
Aguardo resposta :)
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+1 #17 Parabéns!Lilia Brinca 09-07-2011 17:48
Rui,
Ficámos muito contentes por teres chegado "são e salvo"ao teu destino. Foi a aventura de um vida!
Um grande abraço,
Lilia e Toni
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+2 #16 Re: Em Rota - 20º Relato - Finalmente QuelimaneSuzy 25-06-2011 18:42
Rui,
Se me é permitida uma opinião, e se ela ainda fôr atempada, entrega os magalhães a uma escola de nível superior que funcione. No ensino primário eles ficam muito contentes quando conseguem reunir papel, lápis e borracha; lápis de cor é um deslumbramen to...
Conheço a realidade porque a vivi em Moçambique e em Luanda. E, facto que continua a espantar-me. aprendem. Mesmo assim; mesmo sem nada, aprendem.
A tua viagem valeu a pena, de qualquer modo. Alguém disse aí atrás que este final podia vir a ser o início de outra coisa. Quem sabe? Há tanto para fazer...
Abraços
Suzy
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+1 #15 Re: Em Rota - 20º Relato - Finalmente QuelimaneMaria Manuel L M 25-06-2011 07:09
Também vi o meu Colégio (Nuno Alvares), agora um Hospital mas muito bem conservado.
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+1 #14 Re: Em Rota - 20º Relato - Finalmente QuelimaneMaria Manuel L M 25-06-2011 07:07
Ficamos contentes por saber que já chegou e que tudo correu como previsto depois do nosso jantar em Vic Falls.
Parabéns por ter atingido o seu objectivo
É pena a igreja estar assim. É uma das mais antigas que ficou no Indico. Mas a construção da nova, ainda no tempo colonial, conduziu a um relativo abandono.
E os computadores Ficaram na Escola? Se não for nessa talvez haja outra onde o projecto seja viável.
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+2 #13 QuelimaneVitor Jacinto 24-06-2011 19:28
Amigo Rui

Finalmente Quelimane, e mais um relato verdadeirame nte "fotográfico" das memórias, e da realidade crua da atualidade.

Bons mergulhos na Zalala !!

Forte Abraço

Vitor Jacinto
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+3 #12 Re: Em Rota - 20º Relato - Finalmente QuelimaneJorge Leite 24-06-2011 17:44
Não desanime com isso Rui. Cumpriu a sua parte, Fez a sua via sacra. Mas "eles" têm de fazer o resto. O trabalho deles. Se não entregar a essa escola opte pelo lar da Aldeia da Paz. Disfrute da estadia.
Abraço
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+3 #11 Finais que justificam iniciosMarco 24-06-2011 15:13
Pois é! Felicito-o pela sua fantástica viagem pelo que o comentátios do Sr. Alexandre Polleri faça todo o sentido. Infelizmente é trist pois é o reflexo da Sociedade em que o mundo se tornou e que uns sofrem mais que outros... podemos fácilmente ver nas suas fotos que apesar dessa pobreza podemos ver um catamara no Rio que deve custar acima de 1.000.000,00 € seguramente. Daria para reconstruir quantas escolas??' E andamos meia duzia numa tormenta para tentar minimizar os danos que alguns o poderiam fazer sem o menor esforço. Enfim algum tem que fazer algo. Voce fez bastante e com optimas intenções, não desista. Um abraço!
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+5 #10 Re: Em Rota - 20º Relato - Finalmente QuelimaneAlexandre Polleri 24-06-2011 12:16
"Havia um menino que chorava muito por não ter sapatos... um dia, de repente, deixou de chorar! É que conheceu outro menino que não tinha pés!!
Se a escola não tem eletricidade , os portáteis de nada servem para as crianças... mas será que isso para "elas" é assim tão importante? Saberiam usar? Teriam acesso à Internet?
Esta aventura em terras Africanas, como todos já percebemos, poderá dar origem a um livro ilustrado com um DVD de fotos. Possivelment e a venda desse livro irá gerar receitas... mas persinto que o objectivo não será o lucro pessoal!
Não será então oportuno fazer nascer aqui uma parceria de Portugal/Moçambique, que leve até essa escola, muitos Magalhães, Mirandas, Afonsos, Migueis, Josés... etc. ...enfim os afetos de um povo que sempre soube ser solidário?
Um grande abraço de Portugal!
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+4 #9 E assim...Célio 24-06-2011 11:43
... se FAZ HISTÓRIA!! Desde do dia que surgiu a ideia até à chegada. Para uns é mais uma pessoa que fez a travessia, mas para os que lhe são mais próximos e principalmen te para SI, é um grande feito, indescritíve l, apesar dos excelentes relatos, só mesmo vivendo os momentos. Decerto que, o que viu, não era o mais desejado, mas a realidade é mesmo essa e tem ai a segunda etapa da viagem, não ficar indiferente, mas sim fazer algo. É disso que o nosso País precisa. Força Rui...
Grande Abraço
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